A liberdade de não postar: privacidade, Instagram e filosofia

Por Marcelo Galuppo

Quase todo mundo publica alguma coisa da própria vida no Instagram. Eu, inclusive. Viagens, restaurantes, livros, encontros, aniversários, conquistas profissionais e pequenos prazeres cotidianos. Nada há de necessariamente errado nisso. As redes sociais permitem manter amizades, compartilhar descobertas e criar formas de presença que seriam impossíveis em outras épocas.

Mas três antigos conselhos talvez nos ajudem a pensar não apenas sobre aquilo que mostramos, mas principalmente sobre aquilo que escolhemos deixar fora da tela.

René Descartes (1596-1650) anotou em latim: larvatus prodeo (avanço mascarado). A frase era acompanhada de uma comparação com os atores, que colocam uma máscara antes de entrar em cena. Descartes parecia compreender que aparecer publicamente nunca é simplesmente mostrar quem somos. Toda aparição envolve uma escolha de personagem, de linguagem e de perspectiva.

Isso não significa que sejamos necessariamente falsos. Uma máscara não é sempre uma mentira. O professor, o pai, o amigo, o escritor e o turista são papéis diferentes desempenhados pela mesma pessoa. Cada um revela algo verdadeiro, embora nenhum deles revele tudo. A própria vida social seria impossível se disséssemos constantemente tudo o que pensamos, sentimos e desejamos.

O problema das redes sociais, portanto, não é o fato de usarmos máscaras. É esquecermos que elas são máscaras. Escolhemos a fotografia, corrigimos a luz, eliminamos o tédio, recortamos os conflitos e apresentamos o resultado como espontaneidade, mas quem nos vê nas redes sociais começa a tratar essa seleção cuidadosamente construída como se fosse a totalidade de uma vida.

Mas o Instagram não é um diário. Um diário tradicional é escrito para preservar alguma coisa do olhar dos outros, enquanto o Instagram registra a vida precisamente para submetê-la a esse olhar. Não mostramos apenas o que fizemos. Mostramos o que gostaríamos que os outros pensassem que somos.

O segundo conselho vem de Epicuro (341-270 a.C.), para quem a felicidade dependeria da moderação dos desejos e da libertação de medos desnecessários. Mas as redes sociais produzem precisamente novos desejos e novos temores: o desejo de aprovação, o medo de ser esquecido, a ansiedade provocada pela comparação e a necessidade de demonstrar que estamos vivendo suficientemente bem. Por isso não basta viajar: é preciso que saibam que viajamos. Não importa a imensidão do horizonte visto do alto de um balão: é preciso que a memória caiba em uma pequena moldura. Não basta frequentar um bom restaurante: é necessário fotografar o prato, ainda que depois tenhamos que comê-lo frio.

A experiência passa, então, a possuir duas camadas. Há aquilo que vivemos e há a imagem que produzimos daquilo que vivemos. Aos poucos, a segunda camada pode tornar-se mais importante que a primeira. Escolhemos o restaurante por ser instagramável (expressão que já faz parte de nosso vocabulário cotidiano), o destino por ser reconhecível e até o momento de alegria por sua capacidade de render uma boa publicação.

Contra isso, Epicuro aconselhava: láthe biósas, expressão geralmente traduzida como vive ignorado ou vive sem chamar atenção. A recomendação não significava necessariamente fugir de todas as relações humanas. Epicuro valorizava profundamente a amizade e organizou ao seu redor uma comunidade filosófica de amigos. Seu conselho dirigia-se sobretudo contra a ambição pública, a disputa por honras e o desejo de reconhecimento, fontes permanentes de inquietação. Viver sem chamar atenção é recusar a ideia de que uma vida só se torna valiosa quando é reconhecida por uma plateia.

O terceiro conselho vem de Baruch de Spinoza (1632-1677). Em seu sinete, ao lado da imagem de uma rosa (seu sobrenome, Spinoza, se liga a espinhos), aparecia uma única palavra em latim: caute (toma cuidado!) A palavra não recomendava covardia, mas prudência. Spinoza conhecia os riscos de dizer publicamente aquilo que pensava, e sabia que nenhuma palavra entra no mundo sem produzir consequências.

Também nós deveríamos ter cautela quando nos expomos em público. Uma postagem parece efêmera, mas pode permanecer indefinidamente disponível. Uma fotografia revela onde estamos, com quem estamos, aquilo que possuímos e os lugares que frequentamos. Uma frase escrita em segundos pode ser retirada de contexto muitos anos depois.

Quando postamos, nossa intenção nos pertence; a interpretação, não. Podemos desejar despertar admiração e produzir inveja. Podemos tentar parecer espontâneos e transmitir ostentação. Podemos querer compartilhar felicidade e provocar ressentimento. Como escrevi em Os sete pecados capitais e a busca da felicidade (editora Citadel, 2024), quando ostentamos, gostaríamos de ser admirados e amados, mas podemos terminar invejados e odiados: “Nosso fim era bom, mas escolhemos mal os meios”.

Curiosamente, enquanto milhões de pessoas transformam a própria intimidade em conteúdo, parece surgir uma nova forma de distinção: não mostrar. Reportagens recentes[1] descrevem a privacidade, a discrição e a possibilidade de viajar sem ser visto como novos símbolos de luxo.

Durante muito tempo, o poder precisava exibir-se. Palácios, carruagens, joias e banquetes demonstravam publicamente a posição de seus proprietários. Hoje, em uma sociedade na qual todos disputam visibilidade, o verdadeiro privilégio pode consistir em controlar quem tem acesso à nossa vida.

A privacidade tornou-se luxo porque desaparecer não está igualmente ao alcance de todos. Muitos dependem das redes para trabalhar, vender, criar contatos e conquistar oportunidades. Professores, artistas, profissionais liberais e pequenos empresários são incentivados a transformar a própria personalidade em marca. Precisam permanecer visíveis para não serem esquecidos pelos algoritmos.

Os muito ricos, ao contrário, podem dispensar a exposição. Não precisam provar que estiveram naquele restaurante, porque podem estar ali quando quiserem. Não precisam exibir determinados círculos sociais, porque já pertencem a eles. Sua invisibilidade não significa ausência de poder, mas precisamente o contrário: significa que não dependem da atenção pública para exercê-lo, porque sabem que há experiências que perdem alguma coisa quando se tornam conteúdo. Uma conversa íntima, uma refeição, uma viagem e até uma alegria podem ser diminuídas quando passam imediatamente a servir de prova pública de uma vida bem vivida.

A questão não é desaparecer das redes nem condenar quem compartilha. Tampouco se trata de transformar a discrição em uma nova forma de superioridade moral, e até a modéstia pode ser ostentação. A questão é recuperar a capacidade de escolher.

Descartes nos lembrava que toda aparição pública envolve uma máscara. Epicuro nos recordava que uma vida não precisa ser notada para ser boa. Spinoza recomendava cautela diante das consequências de nossas palavras e imagens.

Talvez devamos nos perguntar, antes de publicar: estou compartilhando uma experiência ou tentando provar alguma coisa? Esta imagem comunica algo relevante ou apenas solicita aprovação? Estou vivendo minha vida ou representando a vida que penso que os outros esperem de mim? A liberdade não consiste apenas em poder dizer, mostrar e publicar tudo. Consiste também em não precisar fazê-lo. Talvez uma das formas mais raras de liberdade contemporânea seja viver alguma coisa intensamente sem sentir a necessidade de apresentá-la aos outros como evidência. Certas experiências não precisam de espectadores. E talvez sejam justamente elas que mais verdadeiramente nos pertencem.

[1] https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2026/07/18/viajar-e-nao-postar-nas-redes-e-novo-simbolo-de-luxo-suprassumo-do-cool.htm, publicado em 18/07/2026.

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