Eleições 2026: Os próximos quatro anos

Por Marcelo Galuppo

Eleições 2026: Se tem uma coisa que elas nos ensinaram sobre Política, História e Estatística é que humildade é uma virtude epistemológica não só no campo das ciências naturais, mas de toda tentativa de se prever o futuro. Sábio mesmo era Tancredo Neves, que dizia que política é como nuvem: hoje está de um jeito, amanhã de outro. Apesar disso, arrisco a dizer o que pode acontecer (ou, talvez, o que deveria acontecer) nos próximos 04 anos:

O ocaso de Nunes Marques. Kássio Nunes Marques será conhecido como Kássio, o breve. Sua capacidade de influenciar qualquer coisa, dentro ou fora do Supremo Tribunal Federal, chegou ao fim às 17:30 dia 25 de outubro de 2026. Por sua origem e por sua atuação até o dia do segundo turno, o partido de Lula e seus aliados nunca o apoiariam politicamente. A partir daquele dia, ele também deve ter perdido qualquer apoio dos bolsonaristas, que devem ver nele um traidor: afirmar que as urnas são idôneas, concordar com a prorrogação da votação até às 19:00, parabenizar a vitória de Lula e, ainda por cima, dizer que os fiscais do PL não foram cerceados em sua atuação são ações que nunca serão perdoadas pelo bolsonarismo. Isso quer dizer que ele corre risco de sofrer um processo de Impeachment (que não deve se concretizar com seu afastamento porque isso abriria ao PT a possibilidade de indicar um 5º ministro (Lula já vai indicar 4, contando com a vaga de Barroso que não foi preenchida). Mas se houver uma alteração do processo de indicação, e se o Senado vir nisso a possibilidade de influenciar de algum modo (não apenas negativamente, como ocorreu com Messias), Nunes Marques corre perigo.

O PT vai ter que aprender a dialogar com quem está no meio da pirâmide social. O bolsonarismo cresceu empoderando as classes B e C, um grupo com quem o PT nunca soube conversar (como soube conversar com a classe A) e cujos anseios nunca soube atender (como soube atender os anseios das classes D e E). Por isso, as classes B e C nunca compreenderam o projeto de Brasil do PT e como isso também os incluía. Ao contrário, as políticas redistributivas, que visavam estimular o consumo, movimentar a economia e gerar emprego (pois, sempre que há consumidores, alguém precisa fornecer os bens e serviços que essas pessoas consomem), e as políticas inclusivas, que visavam criar mais equidade na sociedade e aumentar qualitativamente a produção, pela qualificação, e o bem-estar (e uma sociedade mais equalitária tende a ser uma sociedade com menos violência). Além disso, o PT nunca compreendeu que, para as classes B e C, o futuro parece algo muito abstrato. O problema imediato é colocar comida na mesa hoje à noite, e por isso troca-se de bom grado a aposentadoria por um aumento ínfimo da renda familiar. Questões como o futuro da previdência privada ou mesmo a possibilidade de mobilidade social ascendente por meio da educação superior são luxos de quem consegue planejar minimamente a vida, e a maioria das pessoas nessas classes continuarão trabalhando mais do que 40 horas semanais (fazendo bicos) e terão seus filhos em escolas públicas perto de suas casas, na maioria das vezes oferecendo um ensino de baixa qualidade por causa das circunstâncias sociais que envolvem as comunidades em que se situam (apesar da dedicação de muitos professores para fazerem a diferença). Para essas pessoas, ter escola ou hospital não é um problema real: o problema real é a possibilidade de alguém lhe roubar o celular, que usa para trabalhar e que, como ele ou sem ele, pagará em 24 parcelas mensais. Soma-se a isso a rápida mudança nos costumes que ocorreu nos últimos 20 anos com o surgimento de partidos historicamente aliados do PT, como o PSOL, para os quais a equidade social não vem apenas pela mudança da economia (como foi a ênfase do PT até os anos 2000), mas também da proteção do desenvolvimento de identidades plurais (ocasionando o choque de costumes para uma classe que se identificava com cristã e que aprendeu, ao longo de sua formação, que havia um jeito certo de se relacionar com as outras pessoas). Se o PT não começar a dialogar com essa classe (sem a pretensão de ensinar-lhe, mas de aprender junto a ela sobre como construir a perspectiva de um futuro melhor para todos) dificilmente ele vai ganhar a próxima eleição, em 2030.

O Bolsonarismo vai implodir. Daqui a quatro anos haverá novas eleições. Se Flávio Bolsonaro estiver solto (é pouco provável, ao que tudo indica hoje), ele quererá se candidatar novamente. O problema é que este deve ser o projeto de Tarcísio de Freitas, que pode até se contentar com o Senado, mas que dificilmente aceitará isso sem concessões que minarão o poder do clã dos Bolsonaro. Para piorar a questão, há alguém de dentro do clã que possivelmente também aspira ao cargo de presidente, ou melhor, de presidenta do Brasil. A luta será entre eles para saber quem se candidatará. Pode ser que os derrotados se submetam e acolham a escolha, pode ser que não, e que rompam com o partido e saiam para se candidatar por outros partidos. O que me parece eleitoralmente mais viável é uma chapa encabeçada por Tarcísio tendo como vice Michelle Bolsonaro. Dificilmente Flávio não boicotará essa composição. Além disso, Tarcísio apoia hoje os Bolsonaros, mas não é um deles, e em muitas coisas se afasta muito desse povo. E se ele os apoia hoje, é preciso lembrar que atuou (com sucesso) no governo Lula e no governo Dilma.

Para vencer uma eventual candidatura de Tarcísio (que me parece mais provável do que uma Bolsonaro), o PT precisará ter Minas Gerais como aliada. E, para isso, precisará se aproximar de Cleitinho. Apesar de sua natureza histriônica, Cleitinho não me parece ser como o deputado Nikolas, movido por likes e alinhado com princípios (e métodos) da extrema direita. Sua origem o torna sensível aos pobres, e, se ele votava na maioria das vezes com as bancadas conservadoras do Senado, guardava certa autonomia em muitos temas, votando com o governo. Se Lula souber valorizá-lo e valorizar Minas Gerais, ele pode caminhar para o centro e ser um eventual aliado do PT em 2030 (afinal, quem poderia, há vinte anos atrás, imaginar que Geraldo Alckmin seria o vice de Lula, e por dois mandatos?). Aliás, pode ser parte da estratégia do PT para construir um terceiro mandato consecutivo valorizar Alckmin (e, se Lula renunciasse em algum momento, deixá-lo governar pode ser o meio para elegê-lo).

A bolsa deverá subir e o dólar cair. O que está acontecendo agora é apenas a realização do lucro. A bolsa subiu na aposta de que Flávio venceria, agora ela está caindo para o patamar de 176600. Esse era o patamar de 31 de agosto, quando começou a campanha. Ou seja, o crescimento foi artificial e o mercado está corrigindo. Acho que a economia brasileira tem fundamentos suficientes para a gente pensar assim. Talvez um pouco desse movimento se deva ao temor de que a dívida pública esteja comprometida com o pacote de bondades de Lula, mas acredito que o incentivo ao consumo vai fazer a economia rodar e o governo arrecadar mais. Há também uma correção natural do preço de ações sobrevalorizadas, e esse movimento é cíclico, mas está ocorrendo em massa agora por causa da oportunidade de migração dos ativos de uma empresa para outra. Dinheiro não tem ideologia, e é a ganância que o move.

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